sérgio medeiros

Sérgio Medeiros atua no meio audiovisual desde a década
de 70, quando realizava filmes em super-8, como Sinais de Fascismo
e alguns curtas experimentais. Nos anos 80, ingressou no curso de Comunicação
Social da Ufes, onde se formou em Publicidade e Propaganda. Nessa época,
uniu forças com o famigerado grupo Balão Mágico,
que reunia estudantes de Comunicação e Artes, em sua maioria,
para a produção de Refluxo, até hoje considerado
o primeiro vídeo produzido por estudantes da Ufes. Desde então,
nunca mais parou de produzir para cinema e vídeo.
REFLUXO

Foi o primeiro trabalho de vídeo, de caráter amador,
realizado por estudantes da Ufes que pretendiam discutir e praticar
a linguagem audiovisual sob a ótica de aprendizagem. Estreou
em outubro de 1986, como parte da programação Mês
do Cinema Brasileiro, no Circo de Cultura, que na ocasião estava
montado no campus de Goibeiras.
Surgiu como argumento de uma ficção, a ser rodada originalmente
em 16mm, para a matéria Teoria da Comunicação,
com o professor Jaime Doxsev, no segundo semestre de 1984. Seu orçamento
foi assustador. O custo ficaria, na época, pelo preço
de um equipamento completo para uma produção em vídeo.
Então surgiu a idéia de gravar em vídeo, não
apenas pelo custo, mas pela praticidade. A partir desse momento o grupo
do Balão Mágico entrou no projeto, pois já desenvolviam
um trabalho de pesquisa em vídeo.
De acordo com Sérgio Medeiros, era o único grupo que
poderia produzir Refluxo, por ser uma produção "underground"
e por causa do seu posicionamento. Neles o diretor encontrou condições
técnicas, artísticas e filosóficas para abraçar
o trabalho. Havia uma identificação muito grande pelo
alto nível de seu questionamento político à estrutura
da universidade "que não passava de um engodo": as
pessoas não produzem, não pesquisam, porque não
existe verba? Não. Porque a universidade não tem interesse.
A primeira parte do roteiro ambienta-se em 2010, numa época
em que a civilização já estava quase exterminada
e o que restou foi uma cidade laboratório, chamada X 13, onde
vive o Imperador do Nada, junto com a Imperatriz, o Primeiro Ministro,
o Cientista Mor e alguns sobreviventes que servem como cobaias. Fora
da cidade, vivem os subseres, que são aberrações
criadas pela devastação atômica e se alimentam de
baratas. Para exterminá-los, o Imperador resolve mandar para
o passado (1986) o personagem Agente Z, para buscar alguns componentes
químicos que só existem nessa época, que serão
usados para destruir a fonte de alimentação dos subseres.
Essa primeira parte é uma homenagem ao expressionismo, ao nascimento
do cinema como obra de arte, inspirado em Fritz Lang. A segunda parte
viaja pelo neo-realismo, e há fortes referências ao Cinema
Novo, Glauber, Truffaut, Godard, o neo-realismo italiano e outros mais.
Nessa parte, o Agente Z já chegou a 1986 e começa a perceber
o cotidiano das pessoas, suas características, os relacionamentos
humanos em geral. Ele conhece então Aline e Ícone e pede
ajuda aos dois. A partir daí ocorre a terceira parte (desfecho
do filme).
A proposta de Refluxo ia ao encontro do pensamento filosófico
do Balão Mágico: trabalhar em função de
um aprendizado geral, com os atores sempre presentes em todos os processos
de produção e finalização, aprendendo, exercitando
e ao mesmo tempo se revezando, pois o elenco da primeira parte é
praticamente a equipe técnica da segunda parte, o que significa
que Refluxo é um exercício de imagem. Na época,
esse fazer cooperativo era novidade na produção de vídeo
capixaba.
O projeto teve como pretensão mudar totalmente o panorama da
produção audiovisual, implementando uma prática
metodológica que abandona o curricular e parte para o experimental.
Assim, Refluxo foi uma produção independente, desvinculada
de qualquer disciplina e ideologia.
É uma obra livre, sem compromissos com esquemas normatizantes
da criação, como transgressão, signos novos, fórmulas
imagéticas etc. Sai do futuro para se tornar presente no momento
em que sai da margem e entra no bojo da sociedade, quando deixa de ser
um ideal para se tornar uma necessidade. É esse aspecto que ataca
a mentalidade restritiva e cerceadora das liberdades de expressões
da Ufes e do Curso de Comunicação Social que, como denuncia,
impediu o acesso aos equipamentos e ao laboratório central de
TV.
Refluxo impõe uma discussão e uma forma: a linguagem
imagética alternativa. O vídeo, enquanto instrumento de
libertação, desmascara o poder e seus agregados. Apesar
das péssimas condições em que foi desenvolvido
o trabalho, a equipe concluiu que foi capaz de produzir muitas coisas
e ganhar controle extensivo sobre o manuseio da linguagem técnica,
além de estimular um considerável número de pessoas
na prática da linguagem do vídeo.
Fitas velhas que não foram desmagnetizadas, provocando perda
da qualidade de imagem e defeitos que levaram a equipe de produção
a refletir sobre o que esperava cada dia de edição: tensão,
preocupações e disputa de espaço.
As gravações tiveram início em julho de 1986
e, com o fim das férias, a equipe começou a seleção
das imagens essenciais e a produção ficou paralisada em
função de um defeito na ilha de edição.
Até o início de outubro daquele ano, houve uma intensa
disputa pelo uso do laboratório, considerando que os alunos da
disciplina Projetos Experimentais tinham prioridade sobre ele. Paralelo
a isso, já acontecia uma produção independente
e própria no curso de Arquitetura, através do projeto
acadêmico-didático Cidade Utópica, cujo vídeo
Rendam-se, Terráqueos mobilizou, seis meses antes, alunos e interessados
na linguagem do vídeo.
Com Refluxo, os alunos conseguiram uma fácil integração
disciplinar, curricular, universitária e social, por ser o vídeo
uma linguagem universal, acessível, alternativa e desalienante.
Um objeto semiótico e revelador, que desinibe a criatividade
inerente a todos.
A equipe responsável por Refluxo se autodefiniu como antiespecialista
que quer a integralidade, o início: "Fazemos do vídeo
uma mensagem e ele como meio nos satisfaz muito. Preferimos copiar o
cinema, por isso a TV é mera máquina publicitária.
O vídeo veio para arrasar com isso. O que precisamos é
alcançar a velocidade eletrônica, mas parece que não
é bem isso o que Eles querem".
No elenco, revelaram-se como atores: Sáskia Sá, Zocra
Carminatti, Telma Guimarães, Ronaldo Oakes, Cláudia Salgado,
Juvenal Carneiro, Paulo Socó, Tonico Quinelatto, Landrevalder
Loyola, entre outros.
FICHA TÉCNICA
Direção e Roteiro: Sérgio Medeiros
Elenco: Sáskia Sá, Mauro Paste, Paulo Socó,
Alex Kursemarx, Ernandes Zanon e Sérgio Medeiros.
Duração: 47 minutos
RITO DE PASSAGEM
Idealizado para unir a linguagem do vídeo à do cinema,
Rito de Passagem apresenta uma temática macabra: o desaparecimento
de crianças vítimas de seqüestro para serem sacrificadas
em rituais de magia negra. A história se passa durante a visita
do Papa a Eldorado, país fictício que faz alusão
ao filme Terra em Transe, de Glauber Rocha. O governador de uma província
chamada Alecrim promove um pacto com o Mal, a fim de se tornar presidente
da República, oferecendo a vida de uma criança para rituais
de magia negra em troca do seu sucesso político.
Sua estréia aconteceu em outubro de 1996, no auditório
da Rede Gazeta e, em seguida, entrou em cartaz nas programações
do Cine Metrópolis e do Cine-teatro Garoto, com sessões
que se intercalavam aos principais filmes em exibição.
Rito de Passagem, é um curta-metragem de 15 minutos que levou
quatro anos para ser finalizado, contados a partir de suas primeiras
filmagens, em 1992. O trabalho fez parte de um projeto de pesquisa em
torno da linguagem cinematográfica, promovido pelo Núcleo
Integrado de Artes Cênicas (Niac) da Ufes, reunindo profissionais
e iniciantes.
Todo o vídeo, que tem produção de Mauro Paste,
foi locado no Espírito Santo, associando o cinema 35mm com o
vídeo U-Matic, sistema no qual foi finalizado, na ilha de edição
da TVE. No elenco, Paulo de Paula, Alvarito Mendes Filho, Renato Coutinho
e participação especial de Jane Ferreguetti, Berenice
Felsky, Carlos Roberto Claudino e Denise Marques, entre outros.
De acordo com Sérgio Medeiros, diretor e roteirista, além
da falta de verba que atrasou a exibição, alguns fatos
estranhos ocorreram a partir das filmagens. No dia em que foi encenado
o ritual fictício, por exemplo, a equipe descobriu que aconteceu
a morte de um menino no Paraná, também num ritual de magia
negra. Por causa da temática e dessas coincidências estranhas,
algumas pessoas abandonaram o elenco.
No filme, uma fita de vídeo achada por uma criança na
rua ao longo do filme marca a presença da técnica dentro
do enredo e desempenha o principal elo de ligação da história.
A fita achada pela personagem infantil mostra exatamente um desses rituais
de magia negra no qual uma criança é sacrificada.
A personagem infantil que assiste ao vídeo inicialmente seria
filha do governador e a próxima oferenda ao ritual. Com a morte
de Renato Coutinho (o governador), o roteiro foi adaptado e a criança
passa a ser filha do mago - interpretado por Paulo de Paula -, também
envolvido nos sacrifícios satânicos. Foi a maneira encontrada
para não alterar as filmagens das quais o ator Renato Coutinho
participou. A mudança não chegou a alterar o roteiro,
pois seria o desfecho da história.
Em meio a todas essas mudanças, a equipe se reuniu com a finalidade
de retomar o projeto em fevereiro de 1996. Durante o período
em que o filme ficou parado, o diretor Sérgio Medeiros até
tentou concluir o trabalho recorrendo aos recursos da Lei Rubem Braga,
mas não foi aprovado sob alegação de que não
era possível desenvolvê-lo unindo as técnicas de
vídeo e de cinema no Brasil.
FICHA TÉCNICA
Direção e Roteiro: Sérgio Medeiros
Produção: Mauro Paste
Câmera: Carlos Alberto Buarque Lins
Trilha Sonora Original: Karel Franz Van Den Bergen
Produção Executiva: Cícero Moraes Neto e
Giovanni Rodighelli
Iluminação: Adolfo Oleari
Edição de Imagem e Som: B.M. Rosemberg
Elenco: Paulo de Paula, Alvarito Mendes Filho, Renato Coutinho,
Jane Ferreguetti, Berenice Felsky e Carlos Roberto Claudino
FUGA DE CANAÃ

Começou a ser gravado em junho de 1990, baseado em livro homônimo,
de Renato Pacheco, por uma equipe técnica vinculada à
Ufes, sob direção de Sérgio Medeiros.
A trama aborda as tragédias ocorridas na família Jank,
desencadeadas a partir da chegada de Herman Fischer, precipitando a
decadência dos descendentes de Milkau e Maria, imigrantes alemães
estabelecidos em Santa Leopoldina, município do interior do Espírito
Santo, retratados em Canaã, livro clássico de Graça
Aranha. O velho Helmut, patriarca dos Jank é dono das terras
do Luxemburgo no Vale do Canaã.
A saga dos Jank é apresentada sob a ótica de quatro
personagens, em flashback: o relato do delegado Simplício Góes
ao Juiz Municipal, do bastardo Helmut Jank Filho à psiquiatra
do manicômio, da professora Agnela, bela mestiça, ao padre
José e das cartas de Franz Jank a seu irmão.
O desenrolar de sucessivas mortes destrói a família
Jank, reduzindo-a em curto período de tempo a apenas um membro
encarcerado.
Inserido numa linha antropológica, o argumento da produção
traça, através da decadência de uma família
alemã, no interior do Espírito Santo, um perfil histórico
e social da colonização alemã no Brasil.
O vídeo foi realizado em Super VHS, com atores capixabas, recrutados
entre profissionais e amadores, estudantes e pessoas do povo. Sua finalidade
é analisar os costumes, a forma de vida, a organização
social, política e religiosa, em trabalho de pesquisa subsidiário
ao texto do romance original, visando a valorização da
literatura capixaba. A direção do vídeo filme é
de Sérgio Medeiros, que conta com os atores profissionais Paulo
de Paula, Eliezer Almeida, Luiz Sérgio Foster, Renato Coutinho,
além dos 70 amadores.
A produção de Fuga de Canaã motivou a realização
de oficinas de corpo e voz, figurino, iluminação, cenografia,
maquiagem e sonoplastia, aproveitamento de atores com larga experiência
na área dramática e descoberta e formação
de novos valores. Participaram das oficinas 144 pessoas, durante 4 meses,
no auditório do Núcleo Integrado de Artes Cênicas
(Niac) da Ufes, com apoio da Sub-Reitoria Comunitária, recebendo
certificados ao final.
FICHA TÉCNICA
Direção e Roteiro: Sérgio Medeiros
Câmera: Gilvan Rodrigues, Mauro Paste e Francisco Carvalho
Iluminação: Marlécio Matos
Assistente de Iluminação: Elvira Breda
Som Direto: Mauro Paste
Editor de Imagem e Som: B. M. Rosemberg
Promoção e Divulgação: Adolfo Oleari
Figurino: Sérgio Dias
Elenco: Renato Coutinho, Romilda Possatti, Silvana Stefanon,
Giovana Stefenoni, Luiz Sérgio Foster, Eliezer Almeida, Jones
Dalfior, Marisleyde Gonçalves, Francisco Shwartz, Paulo de Paula,
Miguel Marvila, Edson Andrade, Mauro Barros, Alcione Dias, Maria das
Graças Médice.